O Caramulo

19-02-2021

16/02/2021 - 6:20h

Porto

Depois de muitos meses de preparação, e com um adiamento pelo meio, hoje é o dia.

O dia 1 do nosso projeto, um sonho que começa a concretizar-se.

São 6:20h e estamos à espera do comboio que nos levará até à estação de Campanhã ( foto 1 ), daí novo comboio, em direção a Aveiro onde começaremos a pedalar.

Estamos dentro do comboio, vemos a chuva e o vento forte a bater nas janelas, o que já nos faz antecipar uma etapa muito rigorosa. Ao chegar a Aveiro, enquanto ultimamos os preparativos, a chuva parou. Iniciamos assim a nossa viagem de bicicleta, em direção ao Caramulo.

Vamos seguindo as indicações para Águeda, sempre pela EN230. Após 15km fazemos a primeira paragem técnica, junto ao apeadeiro de Eirol ( fotos 2 a 5 ), para passar algum material das mochilas para os bolsos e aproveitamos para admirar o rio Vouga, onde é atravessado pela ponte da Rata.

Continuamos o nosso caminho sem sobressaltos.

Em Águeda passamos pelo centro histórico (fotos 15 e 16 ) e retomamos a EN230. Iniciamos a subida a bom ritmo, com algumas paragens esporádicas para fotos ou abastecimento.

A travessia do rio Alfusqueiro ( fotos 19, 20 e 21 ) marca o inicio da verdadeira subida, a partir daqui são 30km que nos separam da vila do Caramulo, podemos contemplar a natureza em todo o seu esplendor, cascatas, rebanhos, aldeias encantadoras e uma vegetação que vai conquistando os poucos elementos que marcam a presença do homem. Sempre acompanhados por uma morrinha "confortável" fomo-nos aproximando do topo da serra.

A cerca de 10km da vila do Caramulo, entramos no nevoeiro que cobria o topo da serra ( fotos 39 a 43 ), o que tornou a visibilidade praticamente nula, e fez cair as temperaturas em cerca de 6ºC.

Ao chegar aos 900m de altitude, começamos a sentir um vento forte, típico das zonas montanhosas, que acrescentou mais um grau de dificuldade à prova e nos deixou mais expostos ao frio.

Ao chegar á vila do Caramulo, decidimos que a ida ao Caramulinho era perigosa, e que iria acarretar um risco muito alto para a equipa. Paramos num coreto para almoçar, era o local mais abrigado do vento e da chuva, e apesar de não ter sítio para nos sentarmos, foi ali mesmo que almoçamos, de pé, sem parar de mexer para evitar arrefecer. Entre massas frias, ovos cozidos, sandes e fruta, cada um comeu o que trouxe de casa. Numa prova em total autonomia, só dependíamos uns dos outros e do que tínhamos nas mochilas.

Sem parar muito tempo, arrancamos mal acabamos de comer e de ligar para casa. Na pequena subida, à saída da vila começaram a surgir as primeiras ameaças de cãibras na equipa, que foram rapidamente ultrapassadas ao chegar à descida.

A partir daqui tudo se tornou mais difícil.

No que deveria ter sido a parte mais "fácil" do percurso, rapidamente se tornou na mais difícil, penosa e perigosa.

Com chuva forte e persistente, e com muito vento a acompanhar, tivemos que fazer a descida sempre a tentar travar, para que os calços não perdessem a aderência por completo. A 20km do fim da descida o elemento que seguia da dianteira decidiu parar, para esperar pelos restantes elementos da equipa, mas quando os pés tocaram no chão, os músculos mostraram o quão dura tinha sido a subida. Com muito sacrifício, e determinação subiu novamente para a bicicleta e continuamos o percurso. Esta era a única hipótese, tendo em conta as condições climatéricas muito agressivas, a distância a que estávamos de casa e o país em confinamento, não restavam muitas alternativas. Rapidamente perdemos muita temperatura corporal, estávamos completamente encharcados e a arrefecer muito rápido, e a única maneira de contrariar isso era a pedalar, mas ainda faltavam 20km a descer em que o risco de queda era muito grande e onde dificilmente conseguiríamos aquecer. Retomamos a descida, com cuidado, para tentar terminar o mais rápido possível, mas com a máxima segurança.

Ao terminar a descida decidimos alterar o percurso e terminá-lo em Águeda, onde apanhávamos o comboio para Aveiro.

Mas ainda havia um desafio final, uma subida que nos separava da nossa meta, com cerca de 3km, sabíamos que ali iriamos recuperar alguma temperatura, no entanto o receio das cãibras também voltava. Em equipa conseguimos ultrapassar a última subida sem sobressaltos e Águeda já estava à vista.

Ao chegar abrigamo-nos na estação vazia e ali trocamos as nossas roupas encharcadas por umas secas que tínhamos nas mochilas.

Agora já "confortáveis" era esperar pelo comboio regional, que nos iria levar até Aveiro, onde ainda tivemos de fazer um sprint, pois o tempo para trocar de comboio era de apenas dois minutos.

Já quentes e confortáveis, foi só deixar a viagem passar e que a CP nos deixasse "à porta de casa".

Doze horas depois, estávamos novamente em casa, com mais uma aventura e muitas histórias para contar.